quinta-feira, 29 de julho de 2010

Mercearia, raiva e afins

A mercearia é o alfa e o omega, o início, o fim, o meio, inexorável, onipresente, tudo.



A mercearia da esquina tem tudo, não é brincadeira, tem tudo. Começa com o dono com nome estranho: Juvêncio, tudo bem, não me vanglorio de Juvêncio porque sei que quase todas as mercearias de esquina tem um dono com nome estranho, quando nasceram acho que suas mães notaram talento. Para ficar claro não estou falando de bar, não é aquela bodega que vende ovos coloridos e “baianinha”. Estou falando de um hipermercado empilhado em algumas prateleiras.
Precisei de lâmpada, da fosforescente, daquelas em espiral, e azul, fui achá-la atrás da fluorescente não espiralada de luz amarela. Precisei de atum, da latinha amarela, em pedaços, achei-o do lado do atum moído. Até aí tudo bem mas daí em diante resolvi pegar pesado: itens de açougue.
Acém, patinho, costela (é, costela), lingüiça apimentada, moela e sobrecoxa de frango, ok, tudo lá, prontinho e bem debaixo das minhas fuças. “Juvêncio, picanha você tem aí?”, “acabou”.
Já estava se tornando irritante, resolvi pegar pesado, jogar contra, articular. Lâmina de barbear, creme de barbear, detergente, cem gramas de provolone, amendoim, cebola, dipirona sódica, dipirona sódica em drágeas, remédio pra cólica, super-bonder, faca de churrasco, vinho branco seco, soda cáustica, caderno, energético, isotônico, papel de seda colorido, vodka com sabor de maracujá, fita de vídeo oito milímetros, esparadrapo.
Tudo lá, podia até marcar na conta se quisesse.
Na hora de dormir eu pensava e jurava pra mim mesmo “alguma coisa que eu precise não deve ter lá, tem que faltar algo”.
Sábado, duas hora da tarde, crueldade pura atravessando o quarteirão, sorriso maléfico e cortesia ensaiada: “Bom dia Juvêncio, você tem aí sucrilhos?”
Poxa! Sucrilhos é genial, é caro e é símbolo de um consumo de nível mais elevado, pelo menos mais elevado do que um comércio de esquina. Tinha batido uma vontade de comer sucrilhos na tarde de sábado e uma vontade ainda maior de me decepcionar com a negativa.
“Não tem não”.
“Obrigado”.
O puro triunfo.
“É aquele do tigre?”
“Sim.”
“Ali atrás, só tem do pequeno.”



terça-feira, 27 de julho de 2010

Relógio Tessitológico

Olha só a idéia que eu não tive que show!


Um defeito grande dos escritores é confiar em uma coisa que eu batizei de “timing de criatividade”, a minha criatividade como bom exemplo segue seu timing, logo após o almoço aproximadamente a uma e meia da tarde ela dá seus primeiros indícios, passam-se sete minutos e ela sossega totalmente para voltar lá pelas quatro, esse timing é supostamente infalível na cabeça de todos os cronistas (modéstia parte acho o termo “cronista” um exagero prepotente, mas, indiscutivelmente elegante) e todos os meses praticamente temos o conteúdo de um livro pocket, em três meses temos uma coletânea.
Todo dia temos plena convicção que é só esperar as idéias despencarem do cérebro para o papel como maçãs despencando de uma árvore, isso dá algum sentimento vago de segurança que talvez ajude essas criaturas inseguras que chamamos de escritores mas é aí que vem o “x” da questão, deram quatro horas e eu ainda não pensei em nada, meu deus que desespero.
Penso na política que é uma fonte unânime e “santa” de assuntos para piadas, sarcasmos, militarismo revolucionário e crônicas mas dela não me vem nada de especial mesmo com o prefeito da capital sendo filmado subornando gente e a polícia federal cobrando IPM (imposto sobre muamba).
Minha cabeça transita entre os esportes, a vida cotidiana, a gastronomia e tudo o que pudesse despertar aquele humor sutil de todo dia, estou começando a desistir dessa carreira antes dela começar sabe, é estressante e insegura.
Ufa, vinte para as quatro, não dá mais tempo cérebro, vai essa mesmo.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pancadaria infantil


Hehe-he-he, deixem suas crianças assistirem um suicídio animado!


Sabe, sempre tive a certeza que as crianças atuais estão violentas demais, e é dobrada a certeza que tenho de que a culpa é dos desenhos animados, dos mais antigos, digamos que os da minha época (década de 90) onde tínhamos um famoso símbolo máximo dos desenhos animados chamado Pica-Pau. Eu sou fã dele, sou fã da forma que ele corrompeu milhares de crianças pelo mundo e sou mais fã ainda de como ele consegue roubar, furtar, tentar homicídios, ser um estelionatário e agredir de uma forma tão lúdica e divertida, eu realmente morro de rir particularmente quando há socos de graça, tiros na cara e beijos na boca.
Outra dupla que ajudou a formar a minha mente animal foi o gato Tom e o rato Jerry, eles me inspiravam quando eu era uma criança (mentira, me inspiram até hoje) a querer enfiar o rabo do gato na churrasqueira acesa (não tem lareira no Brasil, fazer o que) e bater com pás e panelas na cabeça de quem estivesse perto, eles eram profissionais, realmente bons.
E os desenhos de ação então? Esses foram os responsáveis por fazer as crianças pensarem que armas não matam, espadas e facas não cortam e porrada não dói, enfim. Se você acha que isto é uma crônica crítica dos desenhos animados esqueça, não sou revolucionário e alem do mais sou um grande fã de desenhos de pancadaria.

sábado, 10 de julho de 2010

Parem por favor!



De filosofar, só um pouquinho tá? Vão fazer algo inútil, soltar bombinha.



Todo mundo é uma farsa as vezes.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Negócios de deus






Baita sacanagem crucificarem J.C. foi um exagero imperdoável.

Mas vendo por outro lado o cara vem, desce e diz "Que tal se a gente fosse legal uns com os outros pra variar?" Pô! A gente queria mais truques, pirotecnia, um terno de camursa roxa e cobertura televisiva. A gente queria que ele viesse de óculos escuros e fizesse justiça no melhor estilo "Terminator", que viesse pra terra e exibisse um baita rifle divino e saisse dizendo "Olhem meu rifle e pensem bem antes de fazerem travessuras, estou voltando pro céu e você é bem visível lá de cima".


Ele podia ter explorado melhor, podia ter feito uma pesquisa de mercado e elaborado uma estratégia de marketing, se botasse a sua descida em uma planilha os erros seriam facilmente identificáveis. Esperávamos obviamente por umas camisetas de brinde e uns bonés, luvas com número "1", desejávamos que ele erguesse as mãos para o céu e dissesse "Vamos lá! Ooooooolaaa!", mas nada disso aconteceu, foi uma grande invertida.



O cara desceu disse lá o que tinha que dizer numa linguagem pra lá de rebuscada (não sei como os pobres pescadores entendiam o pretérito), fez uns truques legais que deve ter deixado toda a galera com cara de "quero mais" e só. Deu pra fazer o que? Quase nada.



Aí o jogo virou bruscamente, tudo por causa de um bom planejamento empresarial.

Primeiro aconteceu o lançamento do livro, bastante chato e mentiroso pra dizer a verdade. Como era inédito no mercado vendeu que nem coca-cola, todas as camadas sociais se tornaram o público-alvo direto e dá-lhe vendas e mais vendas. De tempos em tempos, pra manter o clima místico de renovação do livro, acrescentavam-se coisas, retiravam-se outras, inventavam algumas besteiras a mais a ponto do cara ficar indiferenciável, por definição, de um inca venusiano metido a Copperfield. E mesmo assim o livro continuou saindo das prateleiras aos borbotões.



Depois vieram os clubes de leitura que aceitavam doações, a publicidade foi feita de um modo que os doadores acreditavam que doando R$ 10,00 , R$ 5,00 chegaria direto na mão de deus. Isso compõe até hoje o principal foco da empresa.



Hoje a empresa tem um share-of-market de aproximadamente 20% (o que é uma grande coisa), como o produto é de patente pública não dá pra eliminar a concorrência que só tem aumentado.

Mais seguimos firmes na nossa fé.


Humor

Tão satisfeito quanto.



Meu humor é chato e irritante, esse cara, mais ou menos.


Sabe, as vezes acho que meu humor é uma parte separada do meu ser, é uma entidade à parte que perambula por aí e adora sair pela minha boca nos momentos inadequados além de não dispensar uma boa oportunidade de adquirir sua casa própria em uma crônica. Sabe o pior de tudo? Eu acho que meu humor é um cara.
Caras perto de caras só significa uma coisa: competição. Caras não são amigos, “colegas” e “josés” são amigos, um cara é meu competidor, ou seja, meu humor compete comigo. Competimos por tudo como dois caras: pelas mulheres, pelo espaço, pela vez de falar e principalmente por quem vai contar a ótima piada do garoto sem braços que nós dois conhecemos. Eu estou ficando com raiva do meu humor.
Eu me mordo de ciúmes desse cara, ele é inteligente, ele sabe agir sozinho, sabe se expressar e passar uma cantada, enfim, me deixa no chinelo, me sinto no fundo do poço. Todo santo dia ele sai pra passear por aí como se fosse pra exibir seus “músculos de ironia” vestindo suas roupas recém compradas de boas idéias no seu carro de sarcasmo.
Temos que admitir que temos concorrentes do mesmo sexo que se interessam pelas mesmas coisas mas temos de admitir também que ter o humor como concorrente é apelação, é deslealdade, é falta de ética e fair-play. Com o meu humor não dá pra competir, acho que vou ter que tomar medidas drásticas. Conversas amistosas nunca deram certo pois o cara é muito pedante e sarrista, não dá pra conversar sério, to pressentindo uma baita briga.
Ou eu me separo dele de uma vez pois essa amizade não está rendendo bons frutos ou ele me deixa ganhar de vez em quando, me deixa paquerar uma garota sem interferir e me deixa contar a piada do garoto sem braços ao menos uma vez por semana, se não nada feito, ele vai ter que procurar outro lugar pra morar. E eu não quero saber dele me deixar ganhar do mesmo modo que me deixou outras vezes por pura sacanagem, ele saía de cena, me deixava sozinho e com cara de nada, fui taxado de chato.





terça-feira, 6 de julho de 2010

Rebelde sem calças

República dos brothers R. Mario Urbinati próx. UEM, temos vagas.


Talvez seja melhor caminhar na santa paz do que ficar se preocupando por aí, sabe, abrir os olhos da humanidade não é bem o meu tipo eu criei uma certa aversão a revolucionários de plantão, e como todo mundo já está careca de saber quando mais se evita alguma coisa mais se encontra, a minha sina são esses rebeldes sem causa.
É assustador como pessoas podem se tornar agressivas na hora de reclamar seus direitos e também é assustador aonde chega o nível de ignorância de alguns revolucionários (não todos, como sempre) e é indispensável narrar alguns personagens da minha vida então.
Começando pelos marxistas/anarquistas/comunistas, bêbados e libertários (principalmente quando estão bêbados) os quais já encontrei na vida, casos muito clássicos, na minha época do colégio me lembro muito bem de Gumercindo (nome fictício), um garoto bipolar, alcoólatra e extremamente aquilo tudo que eu disse. Ele andava pra lá e pra cá tendo como símbolo máximo da luta contra o sistema a sua pulseirinha onde estava escrito Anarquia já com o “A” meio apagado o que lembrou da minha avó dizendo “arrume já essa narquia”, fugia de casa batendo a porta, xingava os outros e fazia loucuras nu no meio da rua, o que fazia lembrar da bipolaridade. O mais frustrante de tudo isso foi ter que encontrar pessoas desse tipo aos borbotões, na faculdade.
O segundo tipo mais comum é um dos mais contagiosos, ele transgride as idades e os ambientes, acho sinceramente que aonde existe vida existe “abaixo assinado”. Eu queria saber o que se passa na cabeça de um promotor de abaixo assinados, principalmente aqueles convictos de que uma folha de caderno das meninas super poderosas com assinaturas de gente pega de surpresa vai mudar o mundo, nunca vi alguém querer fazer uma reclamação formal, mas abaixo assinados, meu deus. Para não continuar falando da minha excêntrica época de colegial vou variar um pouco, o meu último caso visto foi nas aulas de direção onde pessoas assinaram um contrato que dizia que as aulas iriam até 22:30h e queriam sair as 22:00h porque a “moça da recepção” disse que iria acabar “lá por umas 22:00”. O incrível disso foi a professora dizer “sigam o seu coração”, isso me rendeu o segundo “meu deus” do dia.
Só para finalizar cabe um terceiro tipo (pois temos muitos outros mais) muito parecidos com os anarquistas que são os “punks”, coloco entre aspas pois hoje são um bando de pseudopunks (porquê punk que é punk coxa a mãe no tanque!) que batem a porta do quarto, chutam o gato da mãe e comem no Mc Donald’s, não passam de falsos revoltados musicais.
Estou mesmo é com medo de me tornar um cronista revoltado, isso não, isso nunca!

Licença Poética

Use minhas poesias para seu perfil do orkut clicando aqui.


Quem me dera se ela não existisse. Nunca vi coisa tão sem lógica igual essa licença poética, pra quem leva “poética” no nome chega a estragar o famigerado gênero. Gênero esse que criou tantos e tantos gênios, gente que fazia-nos chorar dores alheias e passar dias pensando em uma amada que mora a cinco mil quilômetros e que estão hoje reduzidos a velharias para vestibulandos.
Hoje os poetas são outros, muito piores que os de antigamente.
Hoje devido a essa infame licença falam de amor sem amar, ferem todo um léxico histórico que envolvia a arte de expressar sentimentos, simplificam tudo e todos e ensinam aos alunos que no futuro irão simplificar mais ainda, como se reduzissem o trabalho de um escultor, dizendo que o mármore bruto é mais bonito que Davi. Ouvi a algum tempo que as poesias contemporâneas vem até sem rimas, meu deus, quem deixou isso acontecer?! O mundo já está ruim o bastante, não me venha com poesia sem rima, não comigo, no meu texto quem faz as leis sou eu e a partir de hoje está terminantemente revogada a licença poética prevista por não sei quem não sei quando.
É melhor os poetas começarem a se esforçar mais, a se inspirar mais e principalmente a escrever menos, produção em série nunca foi muito bom pra poesia, ah! E principalmente, não confundam erotismo com sacanagem.

Carreira de cronista

Cara eu te odeio. Oi.



Comecei com o pé esquerdo e chutando errado, mal, pifiamente.
Mas deixemos pra lá essa parte, afinal cronista é cronista oras, temos um aguçado faro para metáforas e ironias e conseguimos colocar sutilezas dentro de mais sutilezas, somos cronistas!
Vejamos então, escolher um tema atual, abordá-lo de forma simplista e tentar usar tantas metáforas e analogias quanto possível, carregar um pouquinho na sintaxe e gramática e eureka! Envie pra algum jornal que tenha coluna do leitor e espere o sucesso, crônica pega.
Tão simples assim e tão poucas crônicas por aí, isso é tão estranho, a poesia que deveria ser um gênero deveras difícil é praticada até pelo mais inculto cidadão, crônica cadê?
Só posso concluir então que o problema está nos cronistas, meu deus que “raçinha” de escritores! Pensam que todos vão entender seus gracejos textuais como se lêssemos suas mentes, pensam que crônicas vem com uma bula para se interpretar da maneira correta e pensam também que são indispensáveis para vida, jornais e afins. Já vi um amigo meu cronista nato acabar como auxiliar de escritório, talento desperdiçado pela ganância de dominar o mundo através do sobrenatural, elevado e semiperceptível humor.
Sabe, o grande problema em ser irônico é que quando não te entendem você fica com uma baita cara de tacho, acho melhor contar piadas mais simples daqui pra frente, “você conhece aquela em que estavam o papagaio, o joãozinho e o gênio e...